São Paulo, 23 de Outubro de 2008 - Há mais de 30 anos, a Bueno Netto transforma a paisagem urbana com seus empreendimentos. Conhecida por ter "construído" a Vila Olímpia, a construtora tem a expectativa de crescer 80% neste ano, e o Valor Geral de Vendas (VGV) deve chegar a R$ 1,5 bilhão. Adalberto Bueno Netto, presidente da empresa, diz que a crise financeira não afeta as projeções da companhia, mas que pode causar uma certa retração nas vendas. Mesmo assim, a construtora não vai parar de investir. Para suprir a atual falta de mão-de-obra no mercado, a Bueno Netto criou a Mextre, empresa especializada em capacitação. Vão ser contratadas 600 pessoas, o que corresponde a 20% do total de empregados na construção.
Gazeta Mercantil - Qual balanço que o senhor faz da empresa?
Estamos há mais de 30 anos no mercado; nossa empresa é segura, tem pé no chão. Mas já fomos maiores. Na década de 1990, tínhamos dois mil funcionários, isso foi na época do Plano Collor. Estávamos entre as três maiores construtoras brasileiras. Durante todo esse tempo, nunca trabalhamos com alavancagens, sempre foi com recursos próprios aliado a investimento de terceiros. Com o boom do mercado, nós resolvemos também crescer, por isso aumentamos 120% do investimento em pessoas, organização e sistemas, nos últimos dois anos. Temos SAP [software de gestão empresarial], talvez sejamos a única empresa de capital fechado a ter esse sistema em todos segmentos: na parte de vendas, de incorporação e construção. Assim, preparamos nossa empresa para ter os moldes das empresas de capital aberto, mesmo sendo fechada. Estamos satisfeitos com o nosso caminho, de não termos aberto capital, e sim termos feito parcerias estratégicas, porque assim nosso crescimento tem sido gradual. Nós trabalhamos com as maiores empresas do mercado, como , Agra, Abyara, Cyrela, Clabyn Segall e Gafisa. Eu acredito que a gente tem sempre que aprender, todos os dias. Com as parcerias, estamos tirando bom proveito; com a Abyara, por exemplo, aprendemos sobre vendas, com a Agra, sobre marketing. Teve uma época que todo mundo começou a achar que incorporar era só vender, como se fosse uma atividade do mercado financeiro. Só que nós temos de produzir, há mais de 30 anos somos construtores, e essa atividade é a mais importante do empreendimento. Nosso foco é o produto e o cliente, e a gente consegue entregar bons produtos dentro do prazo e com preços acessíveis. Nosso diferencial é a construção.
Gazeta Mercantil - Há alguma novidade estratégica?
Há 90 dias, fechamos uma parceria com a Merrill Lynch [banco de investimento] para trabalhar no setor comercial, e montamos a Bueno Netto Corp. É 50% da Bueno Netto e 50% da Merril Lynch e MaxCap.
Gazeta Mercantil - Se o banco já tivesse tido os problemas que teve, o senhor teria feito o negócio?
Não. Mas agora a responsabilidade é do Bank of America. Apesar disso, a parceria está andando muito bem com a Merrill Lynch, e com a MaxCap - que é representante do banco no Brasil. Já estamos com seis projetos , e o primeiro será lançado ainda este mês em Salvador. São 300 salas comerciais, e o empreendimento se chama First. É interessante porque fica próximo ao Centro de Convenções da cidade, e ao lado tem um hotel. Esse é o tipo de empreendimento que a Bueno Netto Corp vai fazer. O segundo também será lançado neste ano, mas aqui em São Paulo.
Gazeta Mercantil - A crise financeira afeta os negócios?
Já está afetando o mercado como um todo. Os bancos se afastaram, retraíram do crédito. Mas esse movimento deve ser provisório, porque o País faz uma boa gestão, está em uma redoma. Então, em um primeiro momento deve haver uma retração, depois uma retomada. O impacto não deve chegar a níveis como no mercado mundial; o efeito vai ser menor em escala, porque o Brasil estava muito bem. O que deve acontecer é diminuição no ritmo de crescimento, porque nesses momentos de crise os negócios param, há muitas incertezas. O impacto para o consumidor final é pequeno, mas uma crise não ajuda em nada.
Gazeta Mercantil - A crise vai reduzir a taxa de crescimento da empresa?
Não, vamos crescer 80%, porque as obras já começaram ou foram contratadas. O que pode acontecer é uma retração nas vendas ou a velocidade de vendas pode ficar um pouco menor. Eu acho que está havendo, na verdade, uma coisa muito boa. Em um primeiro momento, houve uma certa euforia do mercado, e agora está havendo uma sedimentação. Hoje a situação do mercado é de susto. O comprador não quer assumir compromisso de compra de imóvel, que tem pagamento a longo prazo. Mas daqui a um ano, os investidores vão sair da Bolsa por perceber que o mercado imobiliário é garantido, é um porto seguro. Nós esperamos, então, grandes investimentos, porque os investidores vão preferir colocar em ativos fixos. Com certeza, vai ser uma tendência, vamos ter essa retomada, em função da volatilidade do mercado financeiro. Com a crise, acabou a concorrência por terrenos, todo mundo vai ficar com o que já tem. Estamos comprando agora para empreendimentos que serão feitos em 2010.
Gazeta Mercantil - Qual era a velocidade de vendas antes da crise?
Na região do Largo da Batata, em Pinheiros, em uma semana vendemos 330 salas comerciais. Em Campinas, 200 apartamentos foram vendidos em um mês. Temos vários outros ainda, em todos os segmentos. Temos em Salvador, no Guarujá [São Paulo]. Temos terreno em aprovado e ele tinha procuração de retificação. Esperamos lançá-lo no meio do ano que vem.
Gazeta Mercantil - Qual é a estratégia da empresa daqui para frente?
Vamos nos concentrar de novo no Estado de São Paulo, e investir apenas em edifícios comerciais nas principais capitais do País. Nós vemos que os mercados estão muito competitivos, então , é melhor concorrer perto de casa, mais seguro a gente fica para concorrer contra as outras empresas. É mais fácil a gente concorrer com Gafisa, Cyrela, Rossi na Vila Olímpia [São Paulo] do que em Manaus. A parte de residenciais a gente vai focar aqui, em São Paulo. Vamos reduzir a quantidade de lançamentos, mas aumentar tamanho deles. Esperamos crescer 50% no ano que vem em cima dos 80% deste ano, e dos 100% do ano passado. A previsão é que o Valor Geral de Vendas seja de R$ 1,5 bilhão. Nós temos um grande projeto para lançar ainda este ano, o estande, tudo está pronto para receber os compradores. É um edifício residencial na Avenida Marques de São Vicente, na Barra Funda [SP], de dois a quatro dormitórios, voltado para a classe média. É uma parceria com a FIT, da Gafisa. Nós fazemos empreendimentos de classe média até de alto luxo, mas o nosso diferencial mesmo é o empreendimento comercial bem grande, que poucas pessoas fazem.
Gazeta Mercantil - Pode dar um exemplo?
Em Salvador, a gente tem um empreendimento em uma área enorme de 50 mil metros quadrados. Tinha um loteamento em cima, um córrego que a gente canalizou, foi feito um tratamento de rua, de paisagismo, fizemos praças para criar o conceito do bairro. Era um lugar que precisava de melhorias: arrumar as ruas, construir uma pracinha, canalizar um córrego. Aqui, em São Paulo, na Barra Funda, a gente teve o mesmo tipo de trabalho. Era uma área complicada, porque tinha uma invasão de famílias, então, a gente teve que resolver pendências com vizinhos. Refizemos as guias e as calçadas. Estamos negociando com a Prefeitura o que podemos fazer com o córrego que passa no local. É um bairro, é uma área que a gente tem todo tipo de trabalho, você dá vida para o lugar. Chegar em um terreno e fazer um empreendimento é não ter diferencial. Não dá, por exemplo, cobrar mais caro, porque o vizinho oferece a mesma coisa por menos preço. Agora, se é um bairro, você consegue ter um diferencial que atrai compradores, porque você não pode ser comparado ao vizinho. E é isso que a gente quer: apresentar algo totalmente diferente. O empreendimento da Marginal do Rio Pinheiros é um exemplo: é um condomínio residencial com um campo de golfe. A gente chama esse processo de transformação urbana. A própria Vila Olímpia. Hoje ela é um bairro, mas quando a gente chegou aqui, na década de 1990, era um brejo, tudo alagado, as ruas eram de terra, tinha uma favela no meio do bairro. Era um caos. A gente começou a fazer empreendimentos, depois ajudamos a Prefeitura a urbanizar a favela, e foi investindo no bairro. Hoje temos mais de três prédios na região, e estão em construção mais cinco. Então, a gente tende a focar as nossas atividades. E quando se faz um empreendimento bonito, a vizinhança fica valorizada.
Gazeta Mercantil - A empresa faz reurbanização quando constrói empreendimentos. Por quê?
Se a gente não fizer, quem é que vai fazer? Quando é uma área muito grande, não tem como, tem que fazer. Então, retira as licenças com a Prefeitura, licenças ambientais. É um know-how que a construtora tem também. Para fazer os projetos, a empresa acaba tendo de fazer as mais variadas obras. Na Bahia, uma das contrapartidas exigidas para construir um empreendimento foi construir creches. Aqui em São Paulo a contrapartida é em dinheiro, mas há locais que preferem obras para a prefeitura.
Gazeta Mercantil - Quais os entraves para a construção?
Não é questão de dificuldade, é questão de preço. Os preços de cimento e de aço subiram muito. No mundo inteiro, o aço caiu 30% e só aqui no Brasil aumentou 14%. Não há problema com a entrega, e sim o valor cobrado, você paga o preço do dia. Um grande problema é a falta de mão-de-obra. Vamos começar muitas obras no primeiro semestre de 2009, por isso, vamos contratar muitos funcionários. Para isso, resolvemos criar a Mextre, empresa especializada em capacitação de mão-de-obra. Vamos treinar e contratar 600 pessoas, o que corresponde a 20% do total de empregados na construção, o restante é terceirizado. Para isso, contamos com o apoio do Sesc e da Fenai, que já promovem cursos de capacitação para 40 mil pessoas e assim estão suprindo a demanda do mercado por profissionais qualificados. Os canteiros de obras vão funcionar como postos de recrutamento para os interessados. Nossa meta é contratar 10 funcionários por mês para atingir esse total de mão-de-obra necessária para o ano que vem. Mas o grande entrave é a Lei de Zoneamento de São Paulo.
Gazeta Mercantil - Como foi receber o Prêmio Master pelo retrofit do Standard Building, no Rio de Janeiro?
É um prédio emblemático, construído em 1936, na antiga Praça Paris, onde hoje fica o Aterro do Flamengo. É um edifício tombado pelo Patrimônio. Fizemos pesquisa e descobrimos as plantas originais. É muito engraçado ver que originalmente havia uma sala de banho no primeiro andar. É que o prédio ficava de frente para a praia, e as pessoas costumavam tomar banho de mar durante o horário do almoço, e depois voltavam. É realmente um prédio histórico: foi o primeiro a ter ar-condicionado interno da América Latina. E todo mundo conhecia como o prédio da Esso, porque tinha o logotipo da empresa. Caetano Veloso tem uma música sobre ele. Fizemos uma bela recuperação. O retorno vem de um contrato built-suit com a Ibmec, que fez locação por 15 anos.
(Gazeta Mercantil/Relatorio - Pág. 2)(Natália Flach)
Publicado em: 18/11/2008
Fonte: Gazeta Mercantil